01 Fevereiro, 2008

Ele amava e ela odiava o vento

Ele sempre sonhou em voar. Pena ser de um mundo sem asas, mas o sonho sempre foi de deslocar em três dimensões. Achava triste que somente os peixes e os pássaros pudessem andar em três dimensões. Entre os dois, preferia os pássaros, pois o ar dava uma leveza que lhe agradava.

Ela odiava o vento. Não lembra desde quando, mas não fazia questão de ficar ao vento. Todo mundo achava estranho ela não fazer questão pelo ventilador. Ir na janela do carro? Ah, essa briga nunca aconteceu com ela. "Pode ir", não fazia questão. Tem pessoas que não gostam do vento por questões estéticas, para não assanhar o cabelo ou desalinhar a roupa. Não não, ela simplesmente não gostava, incomodava aquela lufada.

Ele, sempre que podia, fechava os olhos quando passada por uma grande lufada de vento. Se imaginava voando, como um pássaro, vendo os oceanos e prédios de cima. Seus cabelos voando. Para os gregos, os ventos são homens. Mas ele imaginava uma Deusa, que lhe tocara o rosto, com um carinho suave que dava calafrios e arrepiava os pelos.

Ela, sempre que podia, entrava num local mais abafado possível. Lhe agradava estar num local quente e fechado, como se aquela enclausuramento lhe trouxesse movimento. Quando era verão então, que mais lhe agradava. Chato era a primavera e seus ventos; em agosto então. Melhor ficar em casa.

Ele sonhara no dia que poderia voar plenamente, estar no plano tridimensional. Ela queria a estase que acolhesse com calor, num calor de um abraço minúsculo. Ele imaginava os ângulos diferentes que veria da vida. Ela fantasiava com o estar, com o ficar junto.

Se encontraram. Foi rápido. Em poucos instantes, O Dente-de-leão era abraçado pela Brisa e saiam pelo espaço, enamorados. Ela, com sutil calor; Ele com leveza.

E andaram o mundo, apaixonados.



Cleber

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29 Novembro, 2007

Cosmìrônico: A Sombra da Lua

Sol Sol Sol Por que hesitas?
Não vês que o argênteo lunar
Vem do Dia para a Noite
Do Sol para a Lua

Sol Sol Sol Por que titubeias?
Existe um lado que não brilha na Lua
Não é invisível, só não está a mostra
E este lado aparece ao Sol
A cada eclipse da Lua

Sol Sol Sol Olha bem
A Lua orbita em sonhos
De Dias e Noites em busca
De um astro que preencha suas fases
Com brilho e leveza e intensidade

Sol Sol Sol Não temeis
Não tenhas sombras em tua plenitude
As nuvens não vão até o espaço
Onde encontrais com a Lua
Que te ama

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26 Novembro, 2007

Um cão filhote ensina muito

Há uns 4 meses, pensei que nunca mais gostaria de um cachorro novamente. Sabe quando você se apega demais a uma coisa e não acredita que -- quando perdê-la -- vai se apegar a outra? Bem, comigo aconteceu isso em julho. não pude ficar com meu cão e ele foi morar distante de mim. Ele havia sido o cão da minha vida e eu tinha que me conformar, pois iria perdê-lo. A separação era inevitável para o processo.

E aconteceu. Ele foi morar numa casa melhor, com tudo que ele mais gostaria: espaço, água, criança. Me doia em pensar que não teria algo que poderia dar para ele, pois ele já tinha tudo. Meu apartamento de 72m² com uma cerâmica lisa não teria comparação. Sem espaço nem brinquedos, lamentava vê-lo, pois havia perdido.

Mas, no feriado de 12 de outubro, ele teria que passar o final de semana prolongado (no meu caso, plus prolongado) comigo. Achei que não teria o que fazer com ele, que ele não me reconheceria mais, não brincaria como antes. Não o via a quase dois meses, que ele passou em um local paradisíaco (na perspectiva de um labrador). Fiquei apreensivo e triste, me achando inútil.

Claro que no primeiro milésimo de segundo que Gandhi me viu, ficou muito feliz. E me senti um idiota, por achar que concorria com riachos e gramados. Ele me ama. Eu amo ele. Foi um final de semana excelente, fazendo qualquer coisa com ele, até ficar em casa sem fazer nada juntos.

Até ai, vi que não tinha perdido Gandhi e que amava ele demais. Mas não mudava o fato de não poder tê-lo (num futuro imediato). Mas ai, uma das cadelas que Gandhi tinha se relacionado teve filhotes. 8 lindos labs, 7 pretos e uma amarela. Um mais lindo que o outro. Tive direito a dois, um casal preto. E agora, o que fazer com filhotes?

Filhotes de labradores são coisas muito bem quistas, rapidamente eles acharam donos. Mas um teve que esperar 15 dias para conhecer sua dona. E quem ficou com o filhote até então? Eu, claro, com ajuda da minha família nas minhas viagens a Caruaru.

45 dias de idade. A coisa mais linda do mundo. Com a mesma idade que Gandhi chegou. Danado, brincalhão, carinhoso. Deus, que coisa linda! Nunca pensei que poderia gostar de outro cão. Mas o jeito que Zero-Um (como chamei para ter um nome provisório ['tira essa roupa preta que você não é labrador, é muleque!" ]) se relacionou comigo foi fantástico. Me apaixonei de novo.

Zero-Um agora está em Petrolina, sendo mimado por sua dona. Gandhi ainda está no paraíso para os labs. Hoje vejo que não perdi Gandhi, nem Zero-Um, nem a capacidade de me apaixonar.

E se inicia um novo ciclo.

Cleber M

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08 Novembro, 2007

Cosmicômica: a Lua

Mitiga e exaspera a Lua no firmamento
Em fases que alternam
Entre quase-Dia e quase-Noite,
Mas sempre a Noite

A Lua ofusca as Estrelas
Com seu Dia noturno
Onde mal se acredita que existe,
Além da Lua, algo que brilhe

A Lua brinda as Estrelas
Com sua Noite noturna
Onde até mesmo os fogos-fátuos brilham
Com graça de corpos celestes

Mas não seria cada Estrela
Um Sol apenas Distante?
E ainda assim, a Lua somente
Mitiga e exaspera no firmamento


Cleber M

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22 Outubro, 2007

Aposta Cosmicônica

Lendo um texto do Calvino que fala de apostas, especialmente de apostas de longo prazo, comecei a lembrar das apostas que fizera. E fiquei recordando que tinha uma que ficou em aberto ainda. E lembrei, hoje a essa hora, que ganhei. Estar só é uma coisa ruim, mas nesse caso me rendera a vitória.

Uma grande amiga minha tinha apostado que em 28 de julho de 2007 estaria casado novamente. Eis que ela errou. Acho que ao contrário. Mais ou menos por essa época nunca estive tão separado.

Um ponto importante é que desfiz a aposta antes. Magoara essa minha amiga e não queria manter um contato, nesse caso importantíssimo, de uma aposta. Apostar exige muita energia e fiquei com receio de acabar fazendo um mal maior.

A pergunta maior é: será se tivesse mantido a aposta teria mudado o resultado final? Ou não? Eu ganharia mesmo? Será que estaria em outra situação? Claro que são só bogagens estas perguntas. A partícula de dúvida "se" só acontece para o futuro. No passado ela se torna uma levianidade. Prender-se aos "se's" do pretérito faz as pessoas perderem as pistas do porvir.

Nem lembro o que ganharia. Mas agora não importa. Voltarei para o Calvino.


Cleber M

Mas que ganhei, ganhei...

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01 Fevereiro, 2007

Mito desconstrutor...

Iemanjá é dona de rara beleza
E, como tal, mulher caprichosa e de apetites extravagantes.
Certa vez saiu de sua morada nas profundezas do mar
E veio à terra em busca do prazer da carne.
Encontrou um pescador jovem e bonito
E o levou para seu líquido leito de amor.
Seus corpos conheceram todas as delícias do encontro,
Mas o pescador era apenas um humano
E morreu afogado nos braços da amante.
Quando amanheceu, Iemanjá devolveu o corpo à praia.
E assim acontece sempre, toda noite,
Quando Iemanjá Conlá se encanta com os pescadores
Que saem em seus barcos e jangadas para trabalhar.
Ela leva o escolhido para o fundo do mar e se deixa possuir
E depois o traz de novo, sem vida, para areia.

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Cleber M

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