Duas Taças
Depois de ler um fantástico livro levemente pornográfico sobre seres humanos, abro um vinho e me ponho uma taça. Na verdade, seria algo mais como abro novamente, já que este vinho é de ontem. Meu maior receio era de ter um bom vinho avinagrado, então me decido tomá-lo hoje mesmo, mesmo só.
O cheiro na rolha não é muito convidativo. Parece que já azedara. Definitivamente, não está tão fresco como outrora. Mas não sou um rapaz de desperdiçar vinhos, apesar do leve sabor ácido na boca. O gosto amadeirado e de cortiça continua, mas não tão fantástico. O melhor de tudo é a taça em que me sirvo. Presente de aniversário mais recente. Um casal de taças de cristal da Bohemia. Lindas. Ressoam ao toque. Lavar dá um pouco de medo, mas quando ouves elas cantar, o medo vira uma alegria infantil, como ver carocinhos de feijão ramarem num copo com algodão molhado. Meu sonho de taça foi realizado.
Sempre respeitei as taças. O papel delas sempre foi importante. Atribuo as taças quase um dever sobrenatural, de conter e servir o vinho. Acho que várias taças têm histórias. Uma taça que passou na minha mão tem uma história minha. No entanto, eu não tenho mais esta taça. Foi um apadrinhamento estranho em uma viagem sem muita noção. Viajei para beber vinhos e entregar um cachorro. Com certeza meu irmão ficaria orgulhoso de mim ao ouvir isto. Claro que pela primeira parte. Minha consorte nesta empreeitada me prometera uma taça. Era uma dupla de taças Cisper para degustação de vinho, uma para cada. Em verdade, ela me deu a taça e depois me tomou. Foi o que aconteceu. Não que ela não tivesse motivos para tirar a taça de mim. Que motivos, sinceramente, não houveram; houveram motivos para nunca mais ela olhar para mim, falar comigo ou sequer cogitar que eu existo, mas não de levar aquela taça.
Aquela taça era um símbolo. Representava inconsequência, diversão, pesar, sofrimentos e mais um monte de sentimentos. Todos num recipiente grande da Cisper de vidro. Eu sou infantil nestas horas. Tinha sido me dado como presente, não aceito bem o fato de não ter que ficar com ela. Contudo, fiquem sem. Acho que amadureci. Na verdade, não amadureci. Ainda sinto a falta da taça que não tenho. Ou talvez nunca tive. Mas sinto falta.
Hoje não gostaria de receber aquela taça. Seria anacrônico. Não teria onde guardar, seria até mesmo constrangedor ter aquela taça, agora solitária, em minha casa. De certa forma, eu acabei ficando com a taça simbólica sem a representação material; como uma taça-simulacro. Esta taça-simulacro serve para tomar o vinho da vida; toda vez que me deparo com aflições do cotidiano me guarneço dela para tomar o vinho e seguir em frente. Esse vinho não parece com o que tomo agora, que é levemente azedo. Parece mais amargo. Mas não menos saboroso. É um vinho forte, encorpado, com um bom buquê. Se não fosse simulacro, diria que a uva deste vinho é uma Cabernet que tomou pouco sol, bem feroz e nova. Em outras palavras, uma delícia.
Simbolicamente, a taça real se quebrou. Somente a taça-simulacro é real. Agradeço a dona da taça real por tudo que ela fez. Por forjar, da areia de minha alma, essa taça-simulacro. Por criar este instrumento de alma para degustar o vinho da vida. No final das contas, apesar de todo pesar e sofrimento, houve uma bela experiência. Posso dizer que tenho algo, mesmo que incompleto, que me define como pessoa. Assim, a frustração de não ter a taça se sublima na taça-simulacro. A taça real eu nunca vou ter, e nunca devo ter. Viver com estra frustração, criar a taça-simulacro e viver a vida é o melhor presente que posso ter. Muito obrigado, artesã do vidro-simulacro.
Cleber M
