08 Abril, 2008

O Cão, A Romã e o Sol

Uma vez, deitado no colo da minha avó, ela me contou uma história sobre o mundo há tempos passado. Ela costumava fazer isso, enquanto coçava minha cabeça com aquelas unhas grandes e com esmalte escuro. Apesar de nunca ter caspa, minha avó sempre passava as unhas com uma certa força sobre o meu couro cabeludo. Nunca esqueci aquela sensação de raspar e o som da sua voz, enquanto ouvia histórias. Uma vez ela me contou um dia que passou quando era muito criança, ao lado do seu pai.

Contou-me que, um Dia, o Sol se cansou do planeta Terra. De tanto ver sofrimento das pessoas, queimadas na natureza e tristeza, a áurea do Sol começou a ficar pesada. O peso fez com que o Sol não quisesse mais se levantar. Os seres humanos, desesperado com a possibilidade de viver sem Sol, iniciaram uma campanha para agradá-lo.
Os maiores circenses do mundo planejaram um espetáculo de 12h ininterruptas, com as maiores acrobacias e façanhas que um humano poderia fazer. E nem assim conseguiram espiar a tristeza do astro. Então, os maiores sacerdotes imaginaram cultos em homenagem ao Sol. Católicos, hindus, budistas, mulçumanos, judeus, todos fizeram rituais para tentar agradar o Sol. Até mesmo alguns mais profanos -- que envolviam sacrifícios de animais-- foram realizados, deixando o Sol ainda mais triste com mais dor e sofrimento.

Sabia-se o dia que o Sol não mais voltaria a iluminar a Terra. Os homens entraram em desespero, começaram a fazer manifestos de paz, atos coletivos, danças, pedidos, choros, livros, peças, uma infinidade de coisas para sensibilizar o Sol. E nada parecia dissuadir o Sol. Todos os seres vivos percebiam que algo de muito ruim iria acontecer quando as Trevas tomassem o mundo, quando nenhuma fagulha de Luz pairasse sobre a Terra. O mundo tinha problemas, sabiam, mas com certeza iria piorar com a ausência da Luz.

O mundo olhava para o horizonte e via o Sol se esconder em nuvens negras. Fotógrafos tentavam guardar o último momento de Luz em películas; milhares de olhos encarando o que parecia impossível de se olhar. Aquela grande bola de Luz branca já começava a amarelar, depois sabiam que ficaria alaranjada e acabaria num vermelho brasil. Depois, somente o último lilás ficara no céu, até as Trevas chegarem e acabarem com tudo. A Lua nada poderia fazer sem o Sol ao seu lado para iluminar as Trevas da Noite. As Estrelas se apagaram diante da tristeza do Sol. Iria acontecer. Nada conseguiu impedir.

Os humanos, desesperançados, sentaram-se para deleitar o último pôr-do-Sol que veriam, pelo resto das suas vidas. Nada poderia ser feito. Aproveitaram. O espetáculo era realmente lindo. O Sol guardou para sua despedida uma apresentação completa de esplendor. Como um grande ator no final de uma tragédia grega, a serenidade do Sol encantou o coração de todos que estavam vendo aquela cena final. Não havia mais desespero nem angústia, somente uma tristeza saudosa do que foi um bom astro e que agora partiria.

Então, quando restavam poucos raios de Sol na superfície da Terra, entre um silêncio eterno de milhares de seres, um cão pula numa romãzeira e pega um dos frutos róseos e corre para uma colina. Trota rapidamente e pára no topo. Solta o fruto no chão e fala para o Sol: “Não vás dormir agora, quero brincar contigo!”.

Aquilo paralisou o astro. Em nenhum momento dos apelos feitos pelos habitantes da Terra houve algo tão sincero e sublime como aquele pedido arfante, de focinho úmido, com a língua de fora, do canino. O Sol pondera e vê que as nuvens, por mais que sejam espessas, não são suficientes para impedir que a Luz exista. Independente dos acontecimentos do mundo, nada poderia impedir o Sol de nascer e iluminar.

E o Sol ergueu-se e saiu para brincar.


Cleber M

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2 Comments:

At 11:10 PM, Anonymous Marcela said...

Gostei da dia da ilustração. Assim como tou gostando dos seus textos. Valeu.

 
At 11:11 PM, Anonymous marcela said...

ops. * dica da ilustração

 

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