30 Julho, 2005

Dilemas de um homem urbano digital comum

Tsc, o ruim de morar em cidades é que você nunca tem tempo/espaço/espaço conversacional para falar certas coisas. Tipo, olhe crianças. Não, não, não pense que desisti da vasectomia, mas quando você vê crianças dá para perceber que elas têm uma coisa que os adultos não têm: um misto de espontaneadade e sinceridade. Quantas vezes já vimos crianças dizendo "não gostei do presente" ou "ela é feia" e os pais em seguida recriminando por causa disso? Pois tem dias que eu sinto falta de dizer "você é feio, não gostei do presente, eu te amo".

Tudo isso é culpa da alienação. Alienamos tudo. Trabalho, quando não fazemos a própria comida, bebida; decisões, quando colocamos uns representantes palhaços para nos representar politicamente; sentimentos, quando simplesmente não conseguimos dizer para as pessoas o que sentimos delas, ou colocamos isso de outra forma (presentes, telefonemas, cafés ou até mesmo lista de e-mails idiotas de correntes).

Culpa da cidade. Veja, se eu morasse no campo, meu círculo social seriam meus vizinhos próximos. Como não teria meios de condução que me levassem a lugares mais distântes, provavelmente minhas amizades e trocas de afeto seriam com os meus vizinhos. Mas na cidade é diferente. Não conheço 1/32 dos meus vizinhos. Nem quero. Na verdade é esta alienação da vizinhança que faz a cidade ser produtiva, independente, rica e fria.

Mas às vezes dá saudades. Lembro do filme "Encontros e desencontros". Rapaz, não é que o sobrenome da moça fez jus ao trabalho? Acho um filme de extrema sensibilidade (principalmente vendo as cenas extras, ela teve realmente muita precisão nas escolhas). Duas pessoas perdidas numa cidade, com este mesmo problema que eu sinto: necessidade de falar algo, mas não tendo uma possiblidade comunicacional de falar.

Este filme é o oposto de "Dogville", mas sobre isso falo depois.

Cleber "mOTA"

3 Comments:

At 10:26 AM, Bernardo "garou" Queiroz said...

Paradoxal hein? Em particular para alguem que estuda conectividade e networking. :)

 
At 1:23 PM, Cleber said...

Este é uma coisa interessante: não é paradoxal. Ou é mas não é nada demais. O networking não resolve, na verdade só atenua ( ou aumenta, depende de quem lê).

 
At 2:56 PM, Nilson Soares said...

Viva a compressão-tempo-espaço e a cidade, no momento que me permitem parar pra falar, conviver e conversar com as pessoas que eu quero e que me são interessantes, ao invés das que simplesmente moram perto de mim.
E sim, Encontros e Desencontros é muito bom, mas ser humano que é ser humano sempre dá um jeito de "se" perder não importa onde esteja...

 

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