05 Abril, 2009

Duas Taças

Depois de ler um fantástico livro levemente pornográfico sobre seres humanos, abro um vinho e me ponho uma taça. Na verdade, seria algo mais como abro novamente, já que este vinho é de ontem. Meu maior receio era de ter um bom vinho avinagrado, então me decido tomá-lo hoje mesmo, mesmo só.

O cheiro na rolha não é muito convidativo. Parece que já azedara. Definitivamente, não está tão fresco como outrora. Mas não sou um rapaz de desperdiçar vinhos, apesar do leve sabor ácido na boca. O gosto amadeirado e de cortiça continua, mas não tão fantástico. O melhor de tudo é a taça em que me sirvo. Presente de aniversário mais recente. Um casal de taças de cristal da Bohemia. Lindas. Ressoam ao toque. Lavar dá um pouco de medo, mas quando ouves elas cantar, o medo vira uma alegria infantil, como ver carocinhos de feijão ramarem num copo com algodão molhado. Meu sonho de taça foi realizado.

Sempre respeitei as taças. O papel delas sempre foi importante. Atribuo as taças quase um dever sobrenatural, de conter e servir o vinho. Acho que várias taças têm histórias. Uma taça que passou na minha mão tem uma história minha. No entanto, eu não tenho mais esta taça. Foi um apadrinhamento estranho em uma viagem sem muita noção. Viajei para beber vinhos e entregar um cachorro. Com certeza meu irmão ficaria orgulhoso de mim ao ouvir isto. Claro que pela primeira parte. Minha consorte nesta empreeitada me prometera uma taça. Era uma dupla de taças Cisper para degustação de vinho, uma para cada. Em verdade, ela me deu a taça e depois me tomou. Foi o que aconteceu. Não que ela não tivesse motivos para tirar a taça de mim. Que motivos, sinceramente, não houveram; houveram motivos para nunca mais ela olhar para mim, falar comigo ou sequer cogitar que eu existo, mas não de levar aquela taça.

Aquela taça era um símbolo. Representava inconsequência, diversão, pesar, sofrimentos e mais um monte de sentimentos. Todos num recipiente grande da Cisper de vidro. Eu sou infantil nestas horas. Tinha sido me dado como presente, não aceito bem o fato de não ter que ficar com ela. Contudo, fiquem sem. Acho que amadureci. Na verdade, não amadureci. Ainda sinto a falta da taça que não tenho. Ou talvez nunca tive. Mas sinto falta.

Hoje não gostaria de receber aquela taça. Seria anacrônico. Não teria onde guardar, seria até mesmo constrangedor ter aquela taça, agora solitária, em minha casa. De certa forma, eu acabei ficando com a taça simbólica sem a representação material; como uma taça-simulacro. Esta taça-simulacro serve para tomar o vinho da vida; toda vez que me deparo com aflições do cotidiano me guarneço dela para tomar o vinho e seguir em frente. Esse vinho não parece com o que tomo agora, que é levemente azedo. Parece mais amargo. Mas não menos saboroso. É um vinho forte, encorpado, com um bom buquê. Se não fosse simulacro, diria que a uva deste vinho é uma Cabernet que tomou pouco sol, bem feroz e nova. Em outras palavras, uma delícia.

Simbolicamente, a taça real se quebrou. Somente a taça-simulacro é real. Agradeço a dona da taça real por tudo que ela fez. Por forjar, da areia de minha alma, essa taça-simulacro. Por criar este instrumento de alma para degustar o vinho da vida. No final das contas, apesar de todo pesar e sofrimento, houve uma bela experiência. Posso dizer que tenho algo, mesmo que incompleto, que me define como pessoa. Assim, a frustração de não ter a taça se sublima na taça-simulacro. A taça real eu nunca vou ter, e nunca devo ter. Viver com estra frustração, criar a taça-simulacro e viver a vida é o melhor presente que posso ter. Muito obrigado, artesã do vidro-simulacro.

Cleber M

08 Abril, 2008

O Cão, A Romã e o Sol

Uma vez, deitado no colo da minha avó, ela me contou uma história sobre o mundo há tempos passado. Ela costumava fazer isso, enquanto coçava minha cabeça com aquelas unhas grandes e com esmalte escuro. Apesar de nunca ter caspa, minha avó sempre passava as unhas com uma certa força sobre o meu couro cabeludo. Nunca esqueci aquela sensação de raspar e o som da sua voz, enquanto ouvia histórias. Uma vez ela me contou um dia que passou quando era muito criança, ao lado do seu pai.

Contou-me que, um Dia, o Sol se cansou do planeta Terra. De tanto ver sofrimento das pessoas, queimadas na natureza e tristeza, a áurea do Sol começou a ficar pesada. O peso fez com que o Sol não quisesse mais se levantar. Os seres humanos, desesperado com a possibilidade de viver sem Sol, iniciaram uma campanha para agradá-lo.
Os maiores circenses do mundo planejaram um espetáculo de 12h ininterruptas, com as maiores acrobacias e façanhas que um humano poderia fazer. E nem assim conseguiram espiar a tristeza do astro. Então, os maiores sacerdotes imaginaram cultos em homenagem ao Sol. Católicos, hindus, budistas, mulçumanos, judeus, todos fizeram rituais para tentar agradar o Sol. Até mesmo alguns mais profanos -- que envolviam sacrifícios de animais-- foram realizados, deixando o Sol ainda mais triste com mais dor e sofrimento.

Sabia-se o dia que o Sol não mais voltaria a iluminar a Terra. Os homens entraram em desespero, começaram a fazer manifestos de paz, atos coletivos, danças, pedidos, choros, livros, peças, uma infinidade de coisas para sensibilizar o Sol. E nada parecia dissuadir o Sol. Todos os seres vivos percebiam que algo de muito ruim iria acontecer quando as Trevas tomassem o mundo, quando nenhuma fagulha de Luz pairasse sobre a Terra. O mundo tinha problemas, sabiam, mas com certeza iria piorar com a ausência da Luz.

O mundo olhava para o horizonte e via o Sol se esconder em nuvens negras. Fotógrafos tentavam guardar o último momento de Luz em películas; milhares de olhos encarando o que parecia impossível de se olhar. Aquela grande bola de Luz branca já começava a amarelar, depois sabiam que ficaria alaranjada e acabaria num vermelho brasil. Depois, somente o último lilás ficara no céu, até as Trevas chegarem e acabarem com tudo. A Lua nada poderia fazer sem o Sol ao seu lado para iluminar as Trevas da Noite. As Estrelas se apagaram diante da tristeza do Sol. Iria acontecer. Nada conseguiu impedir.

Os humanos, desesperançados, sentaram-se para deleitar o último pôr-do-Sol que veriam, pelo resto das suas vidas. Nada poderia ser feito. Aproveitaram. O espetáculo era realmente lindo. O Sol guardou para sua despedida uma apresentação completa de esplendor. Como um grande ator no final de uma tragédia grega, a serenidade do Sol encantou o coração de todos que estavam vendo aquela cena final. Não havia mais desespero nem angústia, somente uma tristeza saudosa do que foi um bom astro e que agora partiria.

Então, quando restavam poucos raios de Sol na superfície da Terra, entre um silêncio eterno de milhares de seres, um cão pula numa romãzeira e pega um dos frutos róseos e corre para uma colina. Trota rapidamente e pára no topo. Solta o fruto no chão e fala para o Sol: “Não vás dormir agora, quero brincar contigo!”.

Aquilo paralisou o astro. Em nenhum momento dos apelos feitos pelos habitantes da Terra houve algo tão sincero e sublime como aquele pedido arfante, de focinho úmido, com a língua de fora, do canino. O Sol pondera e vê que as nuvens, por mais que sejam espessas, não são suficientes para impedir que a Luz exista. Independente dos acontecimentos do mundo, nada poderia impedir o Sol de nascer e iluminar.

E o Sol ergueu-se e saiu para brincar.


Cleber M

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01 Fevereiro, 2008

Ele amava e ela odiava o vento

Ele sempre sonhou em voar. Pena ser de um mundo sem asas, mas o sonho sempre foi de deslocar em três dimensões. Achava triste que somente os peixes e os pássaros pudessem andar em três dimensões. Entre os dois, preferia os pássaros, pois o ar dava uma leveza que lhe agradava.

Ela odiava o vento. Não lembra desde quando, mas não fazia questão de ficar ao vento. Todo mundo achava estranho ela não fazer questão pelo ventilador. Ir na janela do carro? Ah, essa briga nunca aconteceu com ela. "Pode ir", não fazia questão. Tem pessoas que não gostam do vento por questões estéticas, para não assanhar o cabelo ou desalinhar a roupa. Não não, ela simplesmente não gostava, incomodava aquela lufada.

Ele, sempre que podia, fechava os olhos quando passada por uma grande lufada de vento. Se imaginava voando, como um pássaro, vendo os oceanos e prédios de cima. Seus cabelos voando. Para os gregos, os ventos são homens. Mas ele imaginava uma Deusa, que lhe tocara o rosto, com um carinho suave que dava calafrios e arrepiava os pelos.

Ela, sempre que podia, entrava num local mais abafado possível. Lhe agradava estar num local quente e fechado, como se aquela enclausuramento lhe trouxesse movimento. Quando era verão então, que mais lhe agradava. Chato era a primavera e seus ventos; em agosto então. Melhor ficar em casa.

Ele sonhara no dia que poderia voar plenamente, estar no plano tridimensional. Ela queria a estase que acolhesse com calor, num calor de um abraço minúsculo. Ele imaginava os ângulos diferentes que veria da vida. Ela fantasiava com o estar, com o ficar junto.

Se encontraram. Foi rápido. Em poucos instantes, O Dente-de-leão era abraçado pela Brisa e saiam pelo espaço, enamorados. Ela, com sutil calor; Ele com leveza.

E andaram o mundo, apaixonados.



Cleber

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15 Janeiro, 2008

O momento que me apaixonei ou "Quem já conseguiu dominar o amor?"

O mundo é engraçado. Não engraçado num sentido "haha", mas num sentido mais irônico. Meu pai sempre diz que a vida é uma roda gigante (ditado bem popular, sei, mas ele diz): quando você está em cima, não deve cuspir em quem está embaixo, porque a roda gira. Existem altos e baixos, momentos ruins e bons. Não sacaneie nas partes boas que sofrerás menos -- potencialmente, creio -- nas partes ruins. Oquei.

Tive um ano e 3/4 ruins ultimamente. Passei por vários momentos emocionais extremamente desgastantes. Acho chato essa parte, parece uma ladainha de um "emo" no seu fotolog, do maior estilo Hope is Emo. Dá um tempo. Mas acho importante falar dessas coisas para se ter noção do salto de um momento para outro. Me machuquei e machuquei muita gente nesse meio tempo. Alguns consegui salvar ainda, apesar deles não acreditarem ou não entenderem uma forma diferente de zelo.

Depois de muito machucar e ser machucado, você entra na ilusão que não entra mais nessa. "Qualé véio, com essa pra cima de mim?". Essa coisa de se entregar, amar? Tô fora!

Essa história é velha. Acho que todas situações e sentimento do mundo já foram escritas em algum livro, você que não leu ainda. E vários livros e músicas falam da pessoa que se fecha depois de um momento ruim. E depois volta a acreditar no amor. (Alguns não voltam a acreditar, também é possível, mas existe igualmente livros sobre esses "nãos".)

No meu caso, eu voltei. E o curioso foi, recapitulando os fatos, saber exatamente quando foi. 8 de novembro de 2007, entre 10:35h e 11h. Tá bom, a HORA exata já é demais. O dia com uma hora aproximada já é muito. Como uma coisa pode mudar tanto assim, em horas, minutos? Quando é o momento exato que a roda gigante pára de descer e começa a subir? "Como" acontece eu não sei, sei "Quando" e "O Que" aconteceu.

Imagine a cena bíblica: você tem potencial de ter tudo mas nada lhe agrada. Mirra, ouro e incenso? Não são esses o presente. O santo Graal é um cálice de carpinteiro, não de ouro. Um dia, uma pequena coisa -- uma-- entre 1,4GB de texto, spam-que-querem-aumentar-seu-pênis, propagandas e porcarias muda sua vida: Um e-mail, 23 linhas, 128 palavras, 597 caracteres.

"Quem já conseguiu dominar o amor?"


Depois desse dia, sua vida muda. Seu sorriso muda [piada infame inclusa - linha 5]. Seus sonhos mudam. Seus desejos mudam. Quase um "deltree /y c:\". Ainda passei por umas turbulências internas de transição, mas com uma grande ajuda graças a um cãozinho, entrei no que sinto e "de com força".

E agora? Ah, curtir a paisagem de cima da roda-gigante. Ascender, crescer com leveza. Reprogramar. Sonhar. Viver. Sorrir. Amar.


Ah ... e o mundo é perfeito
Mas o mundo é perfeito
O mundo é perfeito...


Cleber M

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03 Janeiro, 2008

O Gosto da Cerveja

(originalmente publicado como comentário no Meloso e Calórico, mas "gentilmente" apagado pela dona do blog)

Uma coisa ruim na vida é cerveja. Amarga, deixa você enjoado e com vontade de ir ao banheiro. Quando criança, nunca entendi porque meu pai bebia aquilo. Parecia guaraná, só mais clarinho e com uma espuma. Achava a espuma massa, parecia que tinha caído shampoo no guaraná ralinho. Amargo. Muito amargo. Eu, como ávido tomador de Soda Limonada e Crush (sim, eu tomei), fazia ótimas caretas quando arriscava.

Mas a cerveja me ensinou muito. Primeiro, ensinou que não devo beber muita cerveja. Também ensinou que perder alguns sentindos é ganhar alguma forma de experiência diferente (não que isso valha a pena sempre). E por fim, a cerveja me ensinou o que é o amargo, isto é , um novo sabor. Que por definição não é ruim nem bom, é amargo.

O amargo não é oposto ao doce nem ao azedo. Fisiologicamente, estão situados em partes diferentes da língua. Potencialmente, então, algo pode ser doce e amargo (como uma cerveja malzebier, um suco de laranja com aquela casquinha branca depois de um tempo ou um fim de relacionamento com flores). Imaginei que sua língua é um plano cartesiano, como aqueles de matemática. O "doce" é um eixo ("x" )e -- vamos dizer-- o azedo é outro ("y"). Beber cerveja é adicionar o "z" ao gráfico. Adicionar um "Z" a sua vida, a sua perspectiva, as suas decepções. É reconhecer e degustar o que não é necessariamente doce, descobrir essas novas papilas gustativas.

E não lhe impede de continuar sexperimentando algodão-doce com pipoca, mas agora tudo é diferente.

Como diria Tito Fernandez -- só que falando de vinhos -- não tome cerveja por vício, e sim como uma lição bem aprendida, poque a vida nos demanda muitos sacrifícios. Ah a vida, a vida.

Uma coisa boa na vida é cerveja.


...Alla va la muerte
me esta esperando
alla va debajo
de la enramada...



CLeber M

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29 Novembro, 2007

Cosmìrônico: A Sombra da Lua

Sol Sol Sol Por que hesitas?
Não vês que o argênteo lunar
Vem do Dia para a Noite
Do Sol para a Lua

Sol Sol Sol Por que titubeias?
Existe um lado que não brilha na Lua
Não é invisível, só não está a mostra
E este lado aparece ao Sol
A cada eclipse da Lua

Sol Sol Sol Olha bem
A Lua orbita em sonhos
De Dias e Noites em busca
De um astro que preencha suas fases
Com brilho e leveza e intensidade

Sol Sol Sol Não temeis
Não tenhas sombras em tua plenitude
As nuvens não vão até o espaço
Onde encontrais com a Lua
Que te ama

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26 Novembro, 2007

Um cão filhote ensina muito

Há uns 4 meses, pensei que nunca mais gostaria de um cachorro novamente. Sabe quando você se apega demais a uma coisa e não acredita que -- quando perdê-la -- vai se apegar a outra? Bem, comigo aconteceu isso em julho. não pude ficar com meu cão e ele foi morar distante de mim. Ele havia sido o cão da minha vida e eu tinha que me conformar, pois iria perdê-lo. A separação era inevitável para o processo.

E aconteceu. Ele foi morar numa casa melhor, com tudo que ele mais gostaria: espaço, água, criança. Me doia em pensar que não teria algo que poderia dar para ele, pois ele já tinha tudo. Meu apartamento de 72m² com uma cerâmica lisa não teria comparação. Sem espaço nem brinquedos, lamentava vê-lo, pois havia perdido.

Mas, no feriado de 12 de outubro, ele teria que passar o final de semana prolongado (no meu caso, plus prolongado) comigo. Achei que não teria o que fazer com ele, que ele não me reconheceria mais, não brincaria como antes. Não o via a quase dois meses, que ele passou em um local paradisíaco (na perspectiva de um labrador). Fiquei apreensivo e triste, me achando inútil.

Claro que no primeiro milésimo de segundo que Gandhi me viu, ficou muito feliz. E me senti um idiota, por achar que concorria com riachos e gramados. Ele me ama. Eu amo ele. Foi um final de semana excelente, fazendo qualquer coisa com ele, até ficar em casa sem fazer nada juntos.

Até ai, vi que não tinha perdido Gandhi e que amava ele demais. Mas não mudava o fato de não poder tê-lo (num futuro imediato). Mas ai, uma das cadelas que Gandhi tinha se relacionado teve filhotes. 8 lindos labs, 7 pretos e uma amarela. Um mais lindo que o outro. Tive direito a dois, um casal preto. E agora, o que fazer com filhotes?

Filhotes de labradores são coisas muito bem quistas, rapidamente eles acharam donos. Mas um teve que esperar 15 dias para conhecer sua dona. E quem ficou com o filhote até então? Eu, claro, com ajuda da minha família nas minhas viagens a Caruaru.

45 dias de idade. A coisa mais linda do mundo. Com a mesma idade que Gandhi chegou. Danado, brincalhão, carinhoso. Deus, que coisa linda! Nunca pensei que poderia gostar de outro cão. Mas o jeito que Zero-Um (como chamei para ter um nome provisório ['tira essa roupa preta que você não é labrador, é muleque!" ]) se relacionou comigo foi fantástico. Me apaixonei de novo.

Zero-Um agora está em Petrolina, sendo mimado por sua dona. Gandhi ainda está no paraíso para os labs. Hoje vejo que não perdi Gandhi, nem Zero-Um, nem a capacidade de me apaixonar.

E se inicia um novo ciclo.

Cleber M

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